parque nacional da serra da capivara

AMÉRICA ANCESTRAL


Por Percival Tirapeli *

A descoberta dos sítios arqueológicos no estado do Piauí, hoje considerado um dos mais impressionantes do mundo com aproximadamente trinta mil pinturas rupestres em trezentos e sessenta sítios já pesquisados, se deu em 1963, quando o então prefeito de São Raimundo Nonato, em visita ao Museu Paulista da Universidade de São Paulo, procurou a direção do órgão e mostrou fotos de pinturas em paredes rochosas que a população de sua cidade acreditava ter sido feitas pelos índios. A pesquisadora Niède Guidon, que ali trabalhava, logo percebeu a originalidade das pinturas e compreendeu tratar-se de obras rupestres de um gênero até então desconhecido no Brasil. Porém, foi somente em 1970, após temporada na França, que Guidon liderou a primeira missão franco-brasileira ao local (Guidon, 1991, p. 7).

Em 1991, enviou-se a Unesco um dossiê apontando sua “importância fundamental no plano arqueológico, antropológico e artístico”. O critério da UNESCO para a inscrição na lista de patrimônios mundiais, que estabelece que um patrimônio cultural deve conter “sítios arqueológicos conjugando as obras do homem e da natureza cujo valor é universal e excepcional do ponto de vista histórico e antropológico, único e extremamente raro, e que remontam à antiguidade”, ajusta-se como uma luva ao caso Serra da Capivara.

A densidade de sítios na área do parque com pinturas e gravuras rupestres é absolutamente surpreendente. Entre eles, o Boqueirão da Pedra Furada com mil pinturas sobre a rocha e que, depois de ter sido escavado durante dez anos, forneceu evidências da mais antiga presença humana nas Américas até então, pois foi freqüentado por grupos humanos durante 48.000 anos de maneira ininterrupta. Comprovações de datações similares continuam sendo obtidas no Parque Nacional, o que leva à confirmação da presença do homem americano na região desde tempos remotos — e muda os fundamentos das teorias do povoamento das Américas. No plano antropológico, as pinturas da Tradição Nordeste, um dos tipos de grafismo observados na área, são de grande importância para a reconstituição da vida social dos grupos autores desses registros: o caráter narrativo das composições é de tal importância que permitiu identificar um verdadeiro sistema de comunicação social, que experimenta no tempo certas mudanças que também foram detectadas (Pessis, 1987). Trata-se de um corpus de pinturas que cobre diversos aspectos da vida cotidiana e cerimonial.

No plano artístico, a diversidade dos estilos é abrangente, existindo composições de valor excepcional, desde o estilo inicial da Tradição Nordeste até o estilo final. Ainda, segundo o dossiê UNESCO, são notáveis, em todo o conjunto, “um equilíbrio muito trabalhado, o aproveitamento dos volumes fornecidos pela parede rochosa, o domínio da policromia, o delineamento da figura com contorno aberto que gera uma impressão de movimento e o domínio da terceira dimensão”.

No Parque Nacional Serra da Capivara, se encontra o sítio arqueológico mais antigo das Américas, a Toca do Boqueirão da Pedra Furada, o maior museu ao ar livre da Pré-História, que possui mais de 1.000 grafismos desenhados em suas paredes, mostrando diferentes figuras humanas, animais e cenas diversas. Há quase 48.000 anos, o homem pré-histórico fazia fogueiras e lascava pedras nesse sítio — descoberta que revolucionou a comunidade científica, pois põe por terra a antiga teoria de o homem ter vindo para as Américas pelo Estreito de Behring. “As explicações teóricas que precederam a descoberta de fatos hoje disponíveis foram formuladas em gabinete sem que existisse um embasamento factual suficiente” (Pessis e Guidon, 1992, pp. 19-33). Outros sítios arqueológicos apresentam datações pleistocênicas, como o Sítio do Meio, em escavação, e a Toca do Caldeirão dos Rodrigues.