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BÍBLIA DE PEDRA-SABÃO — OS PROFETAS
Por Percival Tirapeli
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Um espaço de cerca de dez anos medeia a conclusão da parte arquitetônica
do adro e a intervenção escultórica de Aleijadinho. É graças ao drama
litúrgico que os profetas se introduziram na iconografia da Idade Média
com os dramas da Ressurreição e Encarnação, quando os profetas eram chamados
a comparecer e testemunhar numa espécie de processo contra os judeus.
Nesse drama, que derivava de um sermão de Santo Agostinho, cada profeta
dizia uma frase, tirada de um de seus escritos, para provar a verdade
da Encarnação. Daí a tradição.
Nos três planos do Adro, os profetas
ordenam seus gestos, simetricamente, em relação ao eixo da composição
- vários deles são semelhantes, como atores de um mesmo grupo, mas
encarnam alguns protagonistas que trazem consigo todo o sentido do drama.
Abdias, de braço estendido, ergue para o céu o dedo de justiceiro, do
qual depende, para o mundo, o perdão ou a maldição; por esse gesto,
como pelo do chefe do balé, proposto por Bazin, todos os outros coordenam
as respectivas atitudes; Ezequiel recolhe, em seu braço dobrado, toda a cólera
de Deus a fim de espalhá-la no universo em sementes de maldição.
Prolongando o gesto de Ezequiel, Habacuc ergue o braço para amaldiçoar e
parece levado pela violência do gesto, como se ele mesmo fosse empurrado
nessa queda que prediz a seu povo.
Embriagado pela palavra de Deus, Naum titubeia, espantado; seu corpo
decai, seu rosto, que lembra o do Simeão do escultor Giovanni Pisano,
parece nascer da barba, que se enraíza no busto. Comparável ao Moisés
do escultor medieval Sluter, Isaías refugia-se numa sabedoria que não é
humana; seu gênio taciturno é mais terrível que o dos outros. Toda força
parece concentrada em seu pensamento; a testa enrugada abriga raios de luz
da sabedoria.
Porém, de todas as figuras, a mais genial é Jonas: ele foi apanhado no
momento em que era expelido do ventre do monstro marinho. O rosto, com
narinas apertadas, olhos cavos e boca entreaberta, é de um morto que
ressuscita. Esse rosto se aparenta estreitamente com o do Cristo do Passo
Cruz às Costas: um vindo da vida e o outro das sombras, os dois seres se
encontram no mesmo limiar. O sincronismo é perfeito: a ressurreição de
Jonas prefigura a de Cristo e seu nascimento para a luz três dias depois
das trevas, a redenção do pecador salvo pelo sangue divino - a vida
representada pela reconquista de um cadáver (Bazin, 1971, pp. 283-284).
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