Ruínas Jesuítico-Guaranis de São Miguel das Missões

ARQUITETURA JESUÍTICA

Por Percival Tirapeli *


A construção do templo de São Miguel das Missões deve ter-se iniciado em 1735 e a parte substancial terminada em 1744 ou 1747, tendo sido feito por etapas, seguindo as regras da arquitetura jesuítica. O risco original do arquiteto jesuíta João Batista Primoli é considerado o mais próximo ao modelo da Igreja do Gesù, do arquiteto Vignola, em Roma, Itália, proposto como protótipo da igreja jesuítica. Grandioso, com fachada maior que aquela feita por Giacomo della Porta em Roma, Cidade Eterna, o templo, com uma cúpula prevista, sofreu alterações durante a execução.

Um relato de 1756, época do apogeu de São Miguel, feito pelo visconde de São Leopoldo, José Feliciano Fernandes Pinheiro, descreve o grandioso empreendimento jesuítico:

“Jaz colocada na chapa de uma colina, quarteada de alguns bosques, entre os quais serpenteiam abundantes mananciais, que por fim vão confundir-se no Rio Jacuípe, distante um quarto de légua; das abas dela se estendem vistosas campinas. Na frente de uma grande praça quadrangular, na qual desembocam nove ruas, via-se o templo, bem que de paredes de pedra e barro, mas muito grossas, e branqueadas de tabatinga; era voltada para o norte, e nela se entrava por um alpendre de cinco arcos, sustentados por colunas de pedra branca e vermelha, rematada por uma vistosa balaustrada, e sobre uma gradaria da mesma pedra (da qual são também os frisos, cornijas e figuras), que coroava o frontispício, elevava-se a figura de São Miguel, e dos lados as dos seis apóstolos; a igreja é de três naves, de trezentos e cinqüenta palmos de comprido, e cento e vinte de largo, com cinco altares de talha dourada, e excelentes pinturas, e ao entrar na porta principal via-se à direita uma capela com seu altar, e pia batismal, sendo a bacia de barro vidrado de verde, assentada sobre uma moldura de talha dourada. A torre era também de pedra com seis sinos. Imediata ao lado direito da capela-mor chegava-se à sacristia, daí seguiam-se os cubículos dos padres, que eram muitos e cômodos; pegava logo um lanço de quartos, que olhavam para um grande pátio, com alpendrada em roda, destinados à escola de ler, de escrever, música vocal e instrumental, dele se comunicava para outro semelhante, formado de várias casas, em uma das quais trabalhavam vinte e quatro teares, e as outras eram oficinas de ourives, entalhadores, pintores, uma grande ferraria, muitos armazéns; e uma casa forte, que servia de prisão, tudo com admirável ordem; uma espaçosa varanda, sustentada sobre colunas de pedra lavada de vinte e cinco palmos de alto, olhava para uma horta murada de pedra e barro, com ruas alinhadas, e plantadas de pinheiros, laranjeiras, limoeiros, marmeleiros, pessegueiros, e outras muitas árvores e arbustos, tanto indígenas como exóticos. Contíguo ficava um recolhimento de viúvas e donzelas, com um só portão, e um pátio no meio” (Pinheiro, 1982, p. 84).