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A
PAISAGEM IDÍLICA
Por Percival Tirapeli
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Olhar a cidade de Olinda fundada em 1537, pelo primeiro donatário português,
Duarte Coelho, permite desfrutar infinitas leituras do conjunto urbanístico
e dos habitantes: suas múltiplas verdades vivas. Precedidas por antigas
trilhas indígenas, as ladeiras íngremes portuguesas, que formam as ruas
olindenses, encontram-se hoje perdidas entre becos, interrompidas por
fundos de quintais que ainda guardam resquícios da vegetação — cajueiros,
jaqueiras, jambeiros e mangabeiras — que serviu de paisagem cênica para
as primeiras apresentações teatrais jesuíticas e inspiração para o primeiro
poema brasileiro, Prosopopéia, de Bento Teixeira.
Olinda mostra-se atualmente como paisagem transformada: o estado de harmonia
inicial, no qual o modus vivendi do silvícola se integrava à natureza,
habitada por um sem-número de animais silvestres, deu lugar a uma extensão
natural invadida e violada pela história do homem. Nos morros, entrecruzaram-se
desejos lusos, neerlandeses e pátrios: corpos e almas contorceram-se em
credos antagônicos, conformando um entreposto racial de convivência e
delimitação territorial da fé e do capital.
Olhar Olinda é estar suspenso entre a terra e o mar: lugar entremeado
de espécies aclimatadas, como palmeiras-imperiais, tamarindeiros e mangueiras,
frutos que perfumam nossas memórias primordiais, brisas que nos remetem
a um espírito sem fronteiras e céu que se inclina verdejante sobre a extensa
e incontrolável massa do oceano.
Batizada
inicialmente pelo colonizador europeu de Nova Lusitana, essa cidade
perdida no imaginário americano foi cenário de lutas e invasões. Em
1537, a reconstrução da paisagem dá-se pela transposição do modelo de
cidade medieval cristã para a terra brasileira recém descoberta: a
defesa do cristianismo faz brotar em terras tropicais fortalezas,
conventos, igrejas e santas-casas de misericórdia. A vila mudou de nome
para Olinda e prosperou.
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