Centro Histórico de Salvador
ACERVO BARROCO SEISCENTISTA E SETECENTISTA

Por Percival Tirapeli *

Salvador é parte do que há de melhor na arte colonial das cidades litorâneas brasileiras. Sua vista melhor começa pelo mar, onde se avista um rosário de fortes e fortalezas que defendiam a capital, como Fortaleza de São Marcelo. É uma construção desenvolvida segundo planta circular, constituída por um torreão central envolvido por um anel de igual altura (15 metros) formado pelo terrapleno perimetral e quartéis.

A Casa da Alfândega, conhecida como Mercado Modelo, está no mesmo local do primeiro edifício erguido por Tomé de Souza. O acervo coeso representativo do barroco luso-brasileiro pode ser visto já na Cidade Baixa, na Igreja Nossa Senhora da Conceição da Praia, que tem no teto a melhor pintura ilusionista feita por José Joaquim da Rocha. Na antiga Praça do Palácio, abre-se “com grande vista para o mar”, como descreve o historiador colonial Gabriel Soares (Soares, 1971). Pode-se, portanto, começar a vivenciar o primeiro núcleo urbano que, no Brasil, foi concebido com trama retangular, a qual, no entanto, se adaptou desde o início às irregularidades da topografia onde foi situada: na crista de uma elevação que se estende paralela ao mar, abrigando a Bahia de Todos os Santos.

A Praça da Antiga Sé, espaço ampliado da antiga Praça do Palácio, ainda se abria para o mar, hoje abrangendo o espaço arqueológico das fundações da antiga Sé Primacial até o antigo Paço Arquiepiscopal. Essa volumosa construção de três pavimentos datada de 1707 está desambientada da antiga Sé, destruída em 1933, com a qual se ligava por um passadiço bem ao gosto português. Dali se chega ao Terreiro de Jesus, área onde se concentram obras-primas da arte brasileira.

O exterior da Igreja de Jesus, atual Sé de Salvador, é revestido de pedra de lioz e tem na monumental fachada elementos de diversas igrejas portuguesas, como a compartimentação rígida da Sé de Coimbra, a dupla ordem de pilastras colossais de São Roque de Lisboa e, de ambas, os arremates em frontões retilíneos e curvos (Leal, 1998, p. 109). Seu interior é o mais magnífico exemplo da arte maneirista jesuítica com altar-mor severo ladeado de pinturas que datam de 1670 e teto abobadado com pinturas de brutescos. A sacristia é considerada a primeira pinacoteca da arte brasileira, com pinturas dos primeiros jesuítas vindos ao Brasil como José de Anchieta e Manoel da Nóbrega. Na parte superior, na biblioteca, encontra-se o Museu da Sé, cuja melhor peça é a pintura ilusionista de Antonio Simões Ribeiro, o primeiro que trouxe de Portugal esse gênero pictórico.

O conjunto franciscano, além do convento e igreja, ao lado, tem a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, onde estão os painéis figurados de grande interesse para a história de Portugal. Na sala do consistório, encontram-se dez painéis figurados, de altura de doze azulejos e larguras variadas, com representação da área urbana de Lisboa do século XVIII. São construções de grande valor histórico, já que todas as outras da época foram destruídas pelo terremoto que tomou Lisboa em 1755. Além desses painéis, existe um claustro recoberto por azulejos de painel figurado, narrando as núpcias do príncipe Dom José com Dona Maria Ana da Áustria.